segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Gotas

Ao som da chuva que cai.

Ela desceu as escadas correndo, sem saber para onde ir. Seu corpo branco e esguio, molhado de chuva, estremecia ao cortar o ar. Estava nua. E ao último degrau, tombou e caiu sobre os joelhos.

Deixou-se estar ali, no chão, a dor da queda ressoando naquele corpo frio e indefeso. Tudo ao seu redor estranhava; vivo. A sala estava escura, e do chão, ela enxergava apenas formas, contornos. Somente sua pele branca parecia brilhar naquela penumbra. A chuva lá fora caía com violência, açoitando o vidro das janelas assim como açoitara seu corpo ainda a pouco.

Devia levantar-se e continuar correndo, ir embora, mas não conseguia reunir forças para tal. Não conseguia se quer acreditar. Não ela, não com ela, não por ela. Coisa que nunca havia passado pela sua cabeça até o momento em que aconteceu. A água escorria em gotas pelo seu corpo, pingava de seus cabelos negros e compridos, descia-lhe pelo rosto delicado e rubro, afogueado; lambia-lhe o alvo pescoço, espalhando-se pelos seios redondos que arfavam com o ritmo acelerado de sua respiração; algumas gotas faziam a volta completa naquela forma doce; outras paravam a meio caminho para acumular-se no delicado bico róseo do seio, até criarem coragem de se desprenderem daquele corpo para pousar no tapete. As gotas que iam adiante desciam pelo ventre liso, pela cintura, acariciando-lhe as curvas sutis, ora escondendo-se timidamente entre elas, ora alcançando o tímido sombreado entre suas pernas e misturando-se a.

Deitou-se no chão. Tudo gritava para que ela se levantasse e tomasse alguma atitude diante de tamanha descoberta. Nada daquilo jamais fora pensado, no entanto, agora parecia que isso sempre estivera ali, à espreita. E agora sua cabeça estava a girar e gritar e urrar em uma velocidade que a atordoava, fazendo-a incapaz de qualquer atitude. Tudo pesava: e ela ficava. Ali, no chão, deitada, nua e imóvel entre sombras. Rendida. O rosto vermelho, a respiração ofegante. Seus ouvidos pareciam zunir, ensurdecendo-a. E as gotas deslizando por ela - entre ela - dela. E aquele ser era só confusão, insegurança, chuva, medo e um pouco de frio.

Fechou os olhos, como quem tenta se acalmar, e involuntariamente começou a desejar, de forma vaga e difusa, sentir outra vez sobre a pele molhada aquele toque. O toque daquela que fora a causadora de tudo aquilo, de todos os seus rodopios de pensamentos, de seu banho de chuva, de seu tombo: Onde ela está?
Encolheu-se, com frio. As gotas continuavam ali, por suas costas bem feitas, por suas curvas, por suas coxas. E ela continuava sem coragem de se levantar, de fazer algo. Respirava cada vez mais depressa ao perceber nitidamente como sua pele implorava de frio e de calor ao mesmo tempo.

Uma rajada de vento anunciou que uma porta no andar de cima havia sido aberta. Era ela. A causa. Encolheu-se ainda mais no chão, apertou os olhos com força, antecipando o calor que tanto desejava sentir, agora nítida e voluntariamente. Tremia de frio e de muitas coisas. Sua cabeça ainda parecia rodar, mas isso já não lhe importava tanto.

Ouviu o barulho na escada, passos suaves que não tropeçariam, desciam com delicadeza. Ela podia sentir, mesmo encolhida como estava, e de olhos fechados, a energia quase elétrica vinda daquele outro corpo. Vinda daquela outra mulher, que se aproximou lentamente e lhe tocou a cintura gelada com as mãos quentes, lhe envolvendo carinhosamente.

Sentiu quando ela deitou-se no chão ao seu lado, cobrindo-lhe as costas frias com o próprio corpo, os seios macios a se espremerem contra sua pele, num abraço maravilhoso, numa concha, pele separada de pele apenas por uma fina camisola que ela usava.
“Você está gelada, toda molhada nesse chão...”, ela toda era um sussurro morno que aquecia. Falava por reticências, a boca colada à orelha daquele ser já não mais tão encolhido quanto antes. “Eu sei...”, respondia ela, serenando.

Aos poucos, tranqüilizou-se. Aquele abraço, aquele calor, aquilo era a calma, aquilo era conforto: mesmo que ela estivesse jogada no chão duro após um tombo e um banho de chuva do qual nem se secara.
“Vem... vamos sair desse chão, eu te trouxe uma toalha, você está gelada, vem...” As duas levantavam-se devagar, enroladas, enroscadas, coradas. Receosas. Certo medo pasmo do que havia acontecido e do que estava acontecendo. Para a outra, para a causa, a novidade era a mesma.
Agarravam-se para se porem de pé como se quisessem resistir, embora soubessem: não podiam.
Era natural que assim o fosse, como chuva.

Ao se levantarem as bocas outra vez se encontraram, os corpos mais uma vez se colaram, e inevitavelmente elas se deixaram ir de volta ao tapete, sem frio, zunido, ou pensamento: ambas eram apenas pele, tato, corpo-sensível. Pensariam depois, resolveriam tudo depois. Agora estavam presas àquele chão, àquela sensação. Corpo preso em corpo, peles com gosto de orvalho. E elas se abandonavam uma à outra assim como haviam se abandonado à chuva momentos atrás, porque nada mais importava.
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Lá fora, gotas grossas de chuva batiam no vidro da janela e escorriam.
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[De setembro de 2008 á dezembro de 2009.]
Laiz Colosovski

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nadini e a Princesinha

Ao som de “Relicário”, de Nando Reis.

Houve um tempo em que os portões do castelo estavam baixos, e Nadini conseguiu entrar nos domínios de Princesinha. Claro que isso não aconteceu assim, da noite para o dia: esta estória começa um pouco antes, em uma época de maior inocência.

A Princesinha era uma pessoa difícil, de um temperamento mais de ursa que de princesa, e isso fascinava tanto Nadini que não lhe restava outra escolha senão aproximar-se daquela curiosa criatura.

Aproximou-se, aproximaram-se. Contam que ambas decidiram, certa vez, se encontrarem para um passeio. Nadini vestia apenas um leve vestido branco, quase transparente, e falava sem parar. A Princesinha, por sua vez, receosa, vestia sua costumeira armadura de ferro e falava pouco, embora sorrisse o tempo todo ao ouvir Nadini. 

Conversaram por toda uma tarde e um começo de noite, viram o pôr-do-sol juntas e despediram-se. Deste dia em diante, estabelecera-se entre elas um destes vínculos tão inexplicáveis quanto vitais, e é tudo o que se diz. Os encontros, então, tornaram-se freqüentes. As duas sentiam-se bem na companhia uma da outra. O interesse de Nadini sobre aquele ser tão ursa e ao mesmo tempo tão princesa só aumentava; já Princesinha, fascinava-se com a coragem e a sede que Nadini tinha das coisas do mundo. 

Enfim, completavam-se, nos conta esta estória como tantas outras já contadas. Depois de um certo tempo elas já misturavam frases, adivinhavam pensamentos e diziam expressões secretas e só delas: eram cérebros que trabalhavam na mesma sintonia. E riam, riam de qualquer coisa, inclusive delas mesmas.  Coisas de convivência, da mistura de duas almas que se entendiam e se queriam bem.

* * *

Certo dia, Princesinha apareceu sem espada nem capacete, com seus cachos loiros caindo sobre os ombros. Sorria. Não se sabe exatamente o que aconteceu, mas naquele dia Princesinha visitou pela primeira vez a casa de Nadini. Era uma tarde úmida e vermelha de verão.

A casa de Nadini era grande, bem iluminada e com poucos móveis que davam um ar de aconchego. Todas as janelas e portas estavam abertas. Havia uma espécie de desordem por toda a casa: recortes de jornais, fotos, desenhos, pinturas e cartas por toda parte; e livros, muitos livros. Tudo tinha espaço ali: sonhos, lembranças de pessoas, de lugares, mágoas passadas, mágoas presentes, saudades, segredos, medos: estes pequenos tesouros íntimos e sem valor para o mundo, mas que cada um de nós carrega consigo.

Princesinha fascinara-se. Nunca havia conhecido alguém assim, tão de perto. Nem ninguém assim, como Nadini, tão corajosa. “Você não tranca sua porta?”, perguntou Princesinha, atônita, ao despedir-se. "Ninguém nunca tentou entrar", foi a triste resposta. A partir de então, Princesinha sempre ia à casa de Nadini. Há muito tempo esquecera-se de usar suas ombreiras de ferro.

Mas Nadini, no entanto, não estava satisfeita: queria conhecer o castelo de Princesinha. Enjoava-se de ficar somente ali em sua casa, sentia sede de outros lugares, de outros universos, e comunicou isto à amiga. Ela não cedeu de pronto, mas em um dia de muito sol, enquanto enrolava timidamente uma mecha de cabelo nos dedos, murmurou baixinho: "está bem..." e foram.

Então, pela primeira vez, Nadini ultrapassou os portões do castelo de Princesinha. O castelo era enorme, belo e secreto, embora pairasse no ar algo de misterioso que Nadini não sabia definir. Havia muitas portas trancadas em todos os corredores. Não se notava desordem alguma: tudo estava perfeitamente arrumado aos olhos de quem andasse pelos corredores e chegasse até a sala de visitas ou, no máximo, até a cozinha, como fazia Nadini.

 Ela, naturalmente, ficou intrigada por saber o que existia atrás de cada porta, e indagou o porquê de tantas trancas e trincos. "Proteção", respondeu Princesinha. “De mim?”, perguntou Nadini, pensando que não havia mais porque manter segredos entre elas. “Do mundo”, foi a triste resposta.

As duas, então, passaram a se ver todos os dias.  Não se imaginavam mais distantes uma da outra. Apenas uma coisa incomodava Nadini: as trancas e trincos. Sempre tentava burlá-los. Queria saber tudo: buscava um ser esguio. Conta esta estória que certa vez, Nadini até conseguiu entrever pela fresta de uma porta, mas antes que ela pudesse pensar ou fazer qualquer coisa, Princesinha, armada e ursa, bateu-lhe a porta na cara, irritada.

* * *

E tudo ia muito bem, até a noite da tempestade. Sim, na noite em que aconteceu, como dizem, chovia torrencialmente. Nadini havia ido visitar Princesinha, e acabou ficando presa no castelo por conta da chuva. As duas então resolveram passar toda a noite conversando: deitaram-se em um sofá confortável na sala e ali ficaram, no escuro com seus segredos, trocando juras incertas entre um sonho e outro. Aquela foi a noite em que Nadini viu, pela primeira e única vez, a pele branca de Princesinha, completamente despida de qualquer armadura. 

Mas, no meio da madrugada, Nadini levantou-se devagar e foi atrás de um copo de água, já que sentia sede. Princesinha dormia. Ao retornar da cozinha, Nadini notou que as portas dos corredores do castelo não estavam mais trancadas. Nenhuma delas. Não conseguiu refrear sua curiosidade: queria olhar todas as portas, saber o que tanto Princesinha escondia, do que ela se protegia tanto. Mas ao entrar em uma delas, não se sabe se por encanto ou por espanto, deixou que o copo de água caísse no chão, espatifando-se em barulho e brilho.

Veio do fundo de um dos corredores um grito imenso. Princesinha, furiosa, armada até os dentes, avançava sobre Nadini aos berros, trancando todas as portas pelo caminho. Não, não houve conversa, foi assim, em uma briga violenta: Nadini foi ferida por Princesinha, e ao tentar proteger-se também feriu a amiga, que ainda sim a expulsou do castelo, para nunca mais voltar: e fim de estória.
 Princesinha subiu os portões, trancou todas as portas e dizem que nunca mais tirou sua armadura, por mais que queimasse pela falta de Nadini. Hoje em dia não se sabe se ela adoeceu ou se apenas prefere continuar no isolamento em que se fechou, pois ela nunca mais foi vista.

Nadini, após a tormenta, passou o trinco na porta de sua casa por um bom tempo, pela primeira vez. As feridas não se curavam por pura teimosia, e ela adoeceu, sem forças ou disposições. Dizem que passou por maus bocados. Mas o ficar enclausurada nunca foi de seu feitio, e logo sentiu necessidade de destrancar a porta de sua casa e sair, vestida em grosso tecido azul, desta vez. Ela sempre é vista caminhando sozinha, e carrega hoje um ar mais melancólico, arrastado em passos mais lentos.

Mas esta estória já faz muito tempo, embora ainda existam rumores de que, em noites de chuva como aquela, nem Nadini, nem Princesinha, consigam dormir muito bem. Dizem que as duas ainda sentem doloridas suas cicatrizes, em noites frias. Dizem que ambas ficaram assombradas pela dor de duas almas que se querem e não se conseguem mais ter, seja por mágoa, seja por medo.

Mas esta não é uma estória de fantasmas, e estes são apenas rumores.

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[De julho à dezembro de 2009.]
Laiz Colosovski

Willy Wonka & the Chocolate Factory (1971)

Pure Imagination - Youtube
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IMDB

Direção: Mel Stuart
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Hold your breath. Make a wish. Count to three.

Come with me... And you'll be
In a world of Pure Imagination
Take a look, and you'll see
Into your imagination

We'll begin... With a spin
Traveling in... the world of my creation
What we'll see will defy...
Explanation.

If you want to view paradise
Simply look around and view it
Anything you want to, do it
Wanna change the world?
There's nothing to it...

There is no life I know
To compare with Pure Imagination
Living there you'll be free
If you truly wish to be..."
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Sem mais palavras. *.*

How Soon Is Now?

I am the son
and the heir
Of a shyness that is criminally vulgar
I am the son and heir
Of nothing in particular

You shut your mouth!
How can you say?
I go about things the wrong way
I am Human and I need to be loved
Just like everybody else does

I am the son
and the heir
Of a shyness that is criminally vulgar
I am the son and the heir
Of nothing in particular

You shut your mouth!
How can you say?
I go about things the wrong way
I am Human and I need to be loved
Just like everybody else does

There's a club, if you'd like to go
You could meet somebody
who really loves you...

So you go, and you stand on your own
And you leave on your own
And you go home
And you cry
And you want to die

When you say it's gonna happen now,
Well, when exactly do you mean?
See I've already waited too long
And all my hope is gone...

You shut your mouth!
How can you say?
I go about things the wrong way
I am Human and I need to be loved
Just like everybody else does...
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[The Smiths, da compilação Hatful of Hollow]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lembra?

“Derrelição - pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A senhora D. D de derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono.”
[Hilda Hilst: A Obscena Senhora D]

Lembra de quando a gente fodia porque dizer eu-te-amo não era o bastante? Você me dizia e nós concordávamos que tudo aquilo que a gente vivía-sentia-gozava-compartilhava não cabia nessas três palavras tão pequeninas, e me beijava com a boca-doce; e eu me agarrava com uma força imensa aos cabelos da tua nuca, cheguei a tirar sangue uma vez, lembra? Eu era toda desespero, desamparo, abandono: DERRELIÇÃO. Beijava tua boca com força, tentando tirar tudo de você, queria você em mim, queria sugar de você aquilo que você tinha de mais valioso, aquilo que te dava vida, e eu sentia que tudo fluía com tal força que certa vez, na penumbra abençoada daquele quarto esquecido no meio da madrugada, eu senti umas pequenas e silenciosas lágrimas se formando como cristais no canto dos meus olhos enquanto eu ainda me segurava com força à tua nuca e tentava atingir o inatingível pela tua boca.

E não me lembro de mais nada além de te trazer ainda mais pra perto de mim e apertar os olhos com força, não queria que você soubesse dos cristais, não queria que você soubesse o quanto eu sou pequena e frágil e assustada, não queria que você percebesse o meu desamparo, e que era somente ali naquele momento em que a gente ia além do eu-te-amo que eu ficava completamente exposta, abandonada; era só ali que eu não conseguia esconder meu desespero.

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Mentira. Queria sim que você me visse em D, nua e frágil, e que me vendo assim pudesse tocar cada nervo do meu corpo com o teu corpo quente, me intuindo o significado: calma, você não está sozinha, eu estou aqui, sente? E eu me agarrava no seu corpo, que aquela altura já era mais meu do que seu, como se minha vida dependesse disso, e acho que por alguns momentos eu chegava a acreditar de verdade naquilo.

E nada mais era necessário, lembra? Eu nunca precisei de presentes, de cartas de amor, de surpresas ou de frases que não são capazes. Eu nunca precisei do eu-te-amo. Eu só precisava deitar ao teu lado, bem perto bem perto, num abraço de peles confusas, os corpos enroscados, sentindo aquele cheiro que era mistura só de nós-duas-suor-e-lençol e aquela sensação violenta de conforto, quando você afastava os cabelos do meu rosto vermelho me fazendo carinho atrás da orelha e deslizando a mão pela minha cintura: dorme bem, meu amor. Te amo.

Lembra?
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[De dezembro de 2008 à fevereiro de 2009]
Laiz Colosovski