Ao som da chuva que cai.
Ela desceu as escadas correndo, sem saber para onde ir. Seu corpo branco e esguio, molhado de chuva, estremecia ao cortar o ar. Estava nua. E ao último degrau, tombou e caiu sobre os joelhos.
Deixou-se estar ali, no chão, a dor da queda ressoando naquele corpo frio e indefeso. Tudo ao seu redor estranhava; vivo. A sala estava escura, e do chão, ela enxergava apenas formas, contornos. Somente sua pele branca parecia brilhar naquela penumbra. A chuva lá fora caía com violência, açoitando o vidro das janelas assim como açoitara seu corpo ainda a pouco.
Devia levantar-se e continuar correndo, ir embora, mas não conseguia reunir forças para tal. Não conseguia se quer acreditar. Não ela, não com ela, não por ela. Coisa que nunca havia passado pela sua cabeça até o momento em que aconteceu. A água escorria em gotas pelo seu corpo, pingava de seus cabelos negros e compridos, descia-lhe pelo rosto delicado e rubro, afogueado; lambia-lhe o alvo pescoço, espalhando-se pelos seios redondos que arfavam com o ritmo acelerado de sua respiração; algumas gotas faziam a volta completa naquela forma doce; outras paravam a meio caminho para acumular-se no delicado bico róseo do seio, até criarem coragem de se desprenderem daquele corpo para pousar no tapete. As gotas que iam adiante desciam pelo ventre liso, pela cintura, acariciando-lhe as curvas sutis, ora escondendo-se timidamente entre elas, ora alcançando o tímido sombreado entre suas pernas e misturando-se a.
Deitou-se no chão. Tudo gritava para que ela se levantasse e tomasse alguma atitude diante de tamanha descoberta. Nada daquilo jamais fora pensado, no entanto, agora parecia que isso sempre estivera ali, à espreita. E agora sua cabeça estava a girar e gritar e urrar em uma velocidade que a atordoava, fazendo-a incapaz de qualquer atitude. Tudo pesava: e ela ficava. Ali, no chão, deitada, nua e imóvel entre sombras. Rendida. O rosto vermelho, a respiração ofegante. Seus ouvidos pareciam zunir, ensurdecendo-a. E as gotas deslizando por ela - entre ela - dela. E aquele ser era só confusão, insegurança, chuva, medo e um pouco de frio.
Fechou os olhos, como quem tenta se acalmar, e involuntariamente começou a desejar, de forma vaga e difusa, sentir outra vez sobre a pele molhada aquele toque. O toque daquela que fora a causadora de tudo aquilo, de todos os seus rodopios de pensamentos, de seu banho de chuva, de seu tombo: Onde ela está?
Encolheu-se, com frio. As gotas continuavam ali, por suas costas bem feitas, por suas curvas, por suas coxas. E ela continuava sem coragem de se levantar, de fazer algo. Respirava cada vez mais depressa ao perceber nitidamente como sua pele implorava de frio e de calor ao mesmo tempo.
Uma rajada de vento anunciou que uma porta no andar de cima havia sido aberta. Era ela. A causa. Encolheu-se ainda mais no chão, apertou os olhos com força, antecipando o calor que tanto desejava sentir, agora nítida e voluntariamente. Tremia de frio e de muitas coisas. Sua cabeça ainda parecia rodar, mas isso já não lhe importava tanto.
Ouviu o barulho na escada, passos suaves que não tropeçariam, desciam com delicadeza. Ela podia sentir, mesmo encolhida como estava, e de olhos fechados, a energia quase elétrica vinda daquele outro corpo. Vinda daquela outra mulher, que se aproximou lentamente e lhe tocou a cintura gelada com as mãos quentes, lhe envolvendo carinhosamente.
Sentiu quando ela deitou-se no chão ao seu lado, cobrindo-lhe as costas frias com o próprio corpo, os seios macios a se espremerem contra sua pele, num abraço maravilhoso, numa concha, pele separada de pele apenas por uma fina camisola que ela usava.
“Você está gelada, toda molhada nesse chão...”, ela toda era um sussurro morno que aquecia. Falava por reticências, a boca colada à orelha daquele ser já não mais tão encolhido quanto antes. “Eu sei...”, respondia ela, serenando.
Aos poucos, tranqüilizou-se. Aquele abraço, aquele calor, aquilo era a calma, aquilo era conforto: mesmo que ela estivesse jogada no chão duro após um tombo e um banho de chuva do qual nem se secara.
“Vem... vamos sair desse chão, eu te trouxe uma toalha, você está gelada, vem...” As duas levantavam-se devagar, enroladas, enroscadas, coradas. Receosas. Certo medo pasmo do que havia acontecido e do que estava acontecendo. Para a outra, para a causa, a novidade era a mesma.
Agarravam-se para se porem de pé como se quisessem resistir, embora soubessem: não podiam.
Era natural que assim o fosse, como chuva.
Ao se levantarem as bocas outra vez se encontraram, os corpos mais uma vez se colaram, e inevitavelmente elas se deixaram ir de volta ao tapete, sem frio, zunido, ou pensamento: ambas eram apenas pele, tato, corpo-sensível. Pensariam depois, resolveriam tudo depois. Agora estavam presas àquele chão, àquela sensação. Corpo preso em corpo, peles com gosto de orvalho. E elas se abandonavam uma à outra assim como haviam se abandonado à chuva momentos atrás, porque nada mais importava.
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Lá fora, gotas grossas de chuva batiam no vidro da janela e escorriam.
[De setembro de 2008 á dezembro de 2009.]
Laiz Colosovski


